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quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Uma história de 60 mil anos


Uma história de 60 mil anos
Escrito por Juliana Winkel
Uma história de 60 mil anos
Escrito por Juliana Winkel
O solo brasileiro esconde tesouros surpreendentes. Histórias de antes da história escrita, que explicam as origens dos povos da América e são comparáveis, em importância, aos principais achados arqueológicos do Velho Mundo. Heranças que ainda estamos decifrando e aprendendo a preservar.
Quando desembarcou no Brasil em 1825, o dinamarquês Peter Lund se surpreendeu com o que encontrou. Estudioso de botânica e zoologia, o médico e naturalista viu no País - que ainda aprendia o que era identidade - o pano de fundo para grandes pesquisas. Se a Nação era jovem, a terra que a sustentava poderia abrigar histórias mais antigas que o solo das metrópoles europeias.
Estabeleceu-se por aqui em definitivo em 1832. Passou a esquadrinhar a região de Lagoa Santa, Minas Gerais, em busca de vestígios do passado. Explorou mais de 200 grutas, descobriu cerca de 12 mil fósseis. E o grande achado: um cemitério com 30 esqueletos humanos, ao lado de ossos de mamíferos da chamada megafauna. Eram animais de dimensões bem maiores que as atuais, como os gliptodontes (tatus de cerca de um metro de altura), as macrauquênias (herbívoros semelhantes a lhamas com trombas) e preguiças de até seis metros de comprimento e cinco toneladas.
O Homem da Lagoa Santa, como foi batizado aquele fóssil humano, ajudou a reescrever um importante período da pré-história brasileira. Os achados sugeriam que tenha sido contemporâneo desses animais de grandes dimensões, que, por muito tempo, acreditou-se que estivessem extintos quando surgiram as populações humanas.
A teoria de Lund só seria confirmada mais de um século depois, em 2002, com base em análises de datação das ossadas. Para o dinamarquês, porém, nunca restaram dúvidas. Considerado o pai da paleontologia brasileira, foi aqui que morreu, em 1880.

África, nossa avozinha
Análises de fósseis indicam que o homem surgiu na África há cerca de 7 milhões de anos. De lá, espalhou-se pelo mundo.


Parece charada: antes dos portugueses, os índios. Mas, e antes dos índios?
Mesmo depois da passagem de Peter Lund por Lagoa Santa no século 19, a região guardava grandes surpresas. De lá para cá, foram extraídos restos de aproximadamente 250 esqueletos humanos. Na década de 1970 foi encontrado um crânio feminino de cerca de 11.500 anos.A descoberta mostrou que a região já era habitada muito antes do que se imaginava, e pôs em xeque as teorias até então mais aceitas sobre o povoamento do homem nas Américas, que consideravam uma migração única partindo da Europa e atravessando o Estreito de Bering, chegando ao Brasil através da América do Norte.

Em 1998, técnicas de reconstituição permitiram vislumbrar a face da jovem encontrada em Lagoa Santa. Tinha aproximadamente 20 anos, olhos arredondados, nariz largo. Batizada de Luzia - referência abrasileirada a Lucy, fóssil de mais de 3 milhões de anos encontrado na Tanzânia em 1974 -, é considerada, até o momento, a primeira brasileira.
A reconstituição da face de Luzia lembra os aborígenes da Austrália e os negros da África - bem diferente dos indígenas que nos acostumamos a imaginar como os primeiros moradores destas terras. A descoberta deu força à hipótese, até então polêmica, de que o continente tenha sido ocupado não por uma, mas por diversas correntes migratórias, vindas inclusive por terra na última Idade do Gelo, durante a baixa do nível dos mares. O grupo de Luzia teria habitado o sul da China e sudeste da Ásia e migrado para a América e para a Oceania há cerca de 11 mil anos.
Apesar das contribuições de Lagoa Santa para o quebra-cabeça da ocupação das Américas, a polêmica continua. No México, foram descobertas pegadas humanas que podem ter sido feitas há 40 mil anos. Outros vestígios, encontrados no sítio arqueológico da Serra da Capivara, no Piauí, podem remontar a 60 mil anos. A caça ao tesouro está apenas começando.

Pistas inusitadas
Além de ossadas, outros vestígios encontrados na região de Lagoa Santa contam os hábitos dos antigos habitantes do Brasil. Machados trabalhados e outros artefatos mostram que eles viviam na Idade da Pedra Polida (entre 12 mil e 4 mil anos antes de Cristo).

A caça e a coleta de alimentos também eram praticadas - como mostram os restos de fogueiras e coprólitos (fezes pré-históricas fossilizadas), que indicam o tipo de alimentação da época: frutos, folhas e raízes, além de carne, quando havia caça.

Na chapada do Aaripe, o maior sítio de peixes fósseis

A Chapada do Araripe, no Ceará, abriga tesouros que conjugam importância e poesia. Maior sítio arqueológico em registro de peixes fósseis do mundo, suas rochas de cerca de 110 milhões de anos conservam animais nos quais é possível pesquisar células musculares e aparelhos digestivos com as últimas refeições. Foi também o primeiro lugar no mundo onde surgiram flores, datadas do período Cretáceo - quando as placas continentais do Brasil e da África ainda se separavam. Incrustadas em rochas, as plantas fósseis são exemplares que deram origem aos vegetais com flores atuais.

A região, que serviu de campo de estudos para a concepção de alguns dos animais mostrados no filme Jurassic Park, de Steven Spielberg, abriga o Parque dos Pterossauros, a quatro quilômetros de Santana do Cariri. Ali são expostas réplicas artísticas desses animais voadores que possuíam até cinco metros de envergadura. De todos os exemplares fósseis dessa ave já achados no mundo, um terço está na Chapada do Araripe. Ao lado de dinossauros de cerca de três metros de altura e oito de comprimento, disputaram espaço na região que corresponde aos Estados do Ceará, Pernambuco e Piauí há cerca de 100 milhões de anos.
Em 2006 foi aprovado pela Unesco um projeto para transformar a área de pesquisas arqueológicas da chapada no primeiro geopark da América - uma região de turismo científico e ecológico que propicia o crescimento auto-sustentado da população. O parque abrange 5 mil quilômetros, oito municípios e nove sítios de observação.

Arqueologia no quintal
A quantidade e qualidade dos vestígios arqueológicos na Chapada do Araripe surpreende. Pode-se achar material pré-histórico no quintal de casa. As rochas contendo fósseis são utilizadas até mesmo para a confecção de pisos e revestimentos para paredes e muros. Não raro, vê-se rochas com peixinhos decorando paredes de casas e construções na região.


Marajoaras foram embora sem deixar pistas
Entre os anos 400 e 1.300 da era cristã, a Ilha de Marajó abrigou uma das civilizações mais desenvolvidas de seu tempo. Os marajoaras, como foram denominados, viviam em uma sociedade dividida por classes sociais, praticavam a agricultura - cujas bases eram a mandioca e o arroz-bravo - e viviam em aldeias populosas, verdadeiras cidades com até 10 mil moradores. Um sofisticado sistema de aterros protegia-os dos alagamentos periódicos na ilha. A cerâmica marajoara, com seus padrões de decoração sofisticados, é o traço mais conhecido dessa civilização. Transformou-se em símbolo da região.

O desenho mais comum é o da serpente, representada por espirais. Está presente principalmente em peças sacras e urnas funerárias, onde eram enterrados os membros da elite. Alguns deles traziam o crânio deformado propositalmente, por meio de faixas amarradas à cabeça desde o nascimento - prática de status comum também em algumas culturas andinas.
O desaparecimento dos marajoaras, por volta de 1.300, é ainda misterioso. Quando chegaram, os portugueses encontraram o território habitado por índios aruaques.

Biquini de barro?
Mais de mil anos antes do biquíni, as marajoaras já usavam tangas feitas de barro. Eram presas ao corpo por meio de cordões. Podem ter sido usadas como roupas de festa, exclusivas da elite, ou mesmo como vestimenta diária, já que algumas foram encontradas com os furos gastos, o que indica uso frequente.


Stonehenge brasileiro
A 16 quilômetros da cidade de Calçoene, no Amapá, foi descoberto um possível observatório astronômico do Brasil pré-colonial. O monumento é formado por 127 blocos de granito em intervalos regulares. Com cerca de 2 mil anos de idade, marcava provavelmente a chegada do solstício de inverno. O mistério está sobretudo na tecnologia usada para cortar e transportar as enormes pedras.


Santa Catarina abriga os maiores sambaquis do mundo

O sul do Brasil é uma das principais áreas a registrar a existência dos sambaquis, formações pré-históricas compostas da fossilização de conchas, moluscos, ossos humanos e animais. Sambaquis fluviais e marítimos já abrigavam grupos humanos há cerca de 9 mil anos, em algumas regiões do país. Mas é no litoral de Santa Catarina que estão os maiores sambaquis do mundo, com centenas de metros de extensão e aproximadamente 5 mil anos de idade. No interior dessas formações foram encontrados vestígios de fogueiras e instrumentos cortantes, além de ossos de peixes, répteis e baleias - sinais da existência de grupos de caçadores e coletores de alimentos.

O povo dos sambaquis já produzia artefatos em pedra polida, como mostram os instrumentos de caça, ornamentos e esculturas representando animais. Bons nadadores e remadores, tinham em média 1,60 metro de altura. Ainda não se sabe como esses grupos desapareceram. A hipótese mais aceita é de que tenham sido eliminados ou aculturados pelos tupis, há cerca de mil anos.

Brasil: terra de fenícios?
Um dos mistérios que permanece sem resposta diz respeito a uma possível passagem dos fenícios pelo Brasil, muito antes da chegada dos portugueses. Alguns estudiosos afirmam que esse povo de exímios navegadores chegou à América por volta do século 12 antes de Cristo, deixando referências na civilização e mesmo na construção do vocabulário usado por nações indígenas brasileiras. A hipótese ganha força com o achado de supostas inscrições em diversos lugares do Brasil - a mais famosa delas na Pedra da Gávea, no Rio de Janeiro, que abrigaria o túmulo de um rei fenício. A veracidade desses vestígios ainda é duvidosa. O que se pode dizer é que a civilização fenícia concorre também como formadora das raízes brasileiras.


Serra da Capivara desbanca velhas teorias

Se Luzia continua sendo destaque da passagem humana pelo continente, outros vestígios intrigam os pesquisadores e abrem caminho para conclusões ainda mais espantosas. Os olhos de arqueólogos se voltam agora para a região de São Raimundo Nonato, no Parque Nacional da Serra da Capivara, Piauí. Naquela área de caatinga, há 9 mil anos, havia floresta amazônica e mata atlântica. Algumas espécies daqueles tempos ainda estão por lá, junto à maior concentração de pinturas rupestres do País: mais de 30 mil, com cerca de 15 mil anos.

E o mais surpreendente: a região abriga ossadas de animais e vestígios humanos que remontam a 60 mil anos. O avanço das pesquisas nessa direção muda o eixo de pensamento a respeito das migrações para as Américas. “A hipótese é de que as mais antigas vieram da África para o nordeste do Brasil”, afirma a presidente da Fundação Museu do Homem Americano, Niéde Guidon.
A teoria de que as primeiras migrações tenham 40 mil anos a mais do que o imaginado, e de que o homem teria vindo por rotas diferentes das comumente aceitas, era defendida por Niéde há quase 30 anos. Finalmente, análises feitas em 2006 por Emílio Fogaça, da Universidade Católica de Goiás, e Eric Boëda, da Universidade de Paris - um dos maiores especialistas do mundo em tecnologia lítica pré-histórica -, mostraram que Niéde estava certa. As ferramentas de pedra descobertas em São Raimundo Nonato foram realmente feitas por humanos e têm entre 33 mil e 58 mil anos. São, portanto, os vestígios mais antigos de ocupação da América.
A constatação, uma vitória de um grupo de pesquisadores brasileiros, era até então desprezada pela comunidade internacional. Niéde, que há três décadas desenvolve pesquisas na região, destaca o desafio de preservar uma área extensa. “As principais dificuldades são a limitação dos recursos e a velocidade de destruição dos sítios.”
Mais do que simplesmente desvendar mistérios, a missão dos pesquisadores da Serra da Capivara e de todos os arqueólogos que revolvem nossas raízes é também sensibilizar a população e as autoridades sobre um trabalho que pode esclarecer muito sobre os rumos da nossa civilização e nossas ligações com o ambiente. Um esforço sem fronteiras em busca de quem somos, capaz de trazer informações fartas que apontem para onde vamos.

Na trilha do tesouro
Alguns dos lugares que guardam pistas sobre os antigos inquilinos destas terras:

Museu Nacional do Rio de Janeiro
Abriga algumas estrelas da arqueologia nacional. Além do crânio de Luzia, expõe o maior dinossauro encontrado no Brasil, o Maxakalisaurus topai, de 13 metros de comprimento, nove toneladas e 80 milhões de anos. Também estão ali peças marajoaras e fotos de Marc Ferrez que retratam os trabalhos da Comissão Geológica do Império, em 1875.

Fundação Museu do Homem Americano (Fumdham)
Fica em São Raimundo Nonato, no Piauí. Milhares de pinturas rupestres entre 10 e 100 mil anos de idade, além de reconstituições do ambiente pré-histórico, são mostradas com a ajuda de guias especializados. O museu baseia-se nos resultados de três décadas de pesquisas realizadas na região do Parque Nacional da Serra da Capivara.

Museu de Paleontologia da Universidade Regional do Cariri
Reúne, em Santana do Cariri, Ceará, mais de 5 mil peças. Entre elas, 750 fósseis coletados na região - incluindo partes de pterossauros.

Museu da Lapinha
Fica em Lagoa Santa, Minas Gerais. Das cerca de 2.600 peças, entre ossadas e objetos dos homens pré-históricos, o destaque está no único esqueleto humano adulto completo encontrado no Brasil. Além dele, há uma flecha feita de nefrita, mineral inexistente por aqui - o que sugere que o objeto tenha sido passado de pai para filho durante a migração dos grupos para a América do Sul ao longo de anos.

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